não adianta resistir. Quando a imprensa decide que é hora de demitir alguém, a onda não desaparece até a vontade dela seja respeitada. E, já comentei aqui o roteiro: alguém que é parte do esquema, uma vez contrariado, denuncia, mas no anonimato. Marca encontro com um dos jornalistas presentes nos casos anteriores de denúncia, leva algum material e conta o seu caso. A revista VEJA tem sido o veículo preferencial, para este tipo de ação.
O jornalista monta o trabalho para ser capa da edição com todas as informações que consegue obter. Depois de fechada a matéria, deixa um pequeno espaço para as palavras do acusado que, normalmente, evita falar, mas fica assustado com o teor. Ele chama os assessores mais próximos, principalmente, a turma da assessoria de imprensa e tenta organizar a reação. É aconselhado a dizer que apurará as denúncias e punirá os culpados, “doa a quem doer”. Também sai com a intenção de ir ao Congresso Nacional falar sobre o assunto (esse procedimento é recente e tem com a garantia dada pelos partidos de sustentação de encenarem um bom teatro, para que o acusado possa alegar inocíªncia. A oposição pedirá uma CPI e a visita espontãnea pode desarticular o movimento.
A matéria vai para as ruas e repercute em todos os canais de comunicação, principalmente, nas mídias sociais. Inicia-se a fase intermediária do processo.
O sujeito esperneia e nega. Pede palavras de apoio do seu partido e da Presidíªncia. O seu partido e os seus aliados, já experimentados, apóiam, mas começam, imediatamente, a organizar a substituição, para não perderem as vantagens do cargo.
A Presidíªncia apóia. O sujeito se sente fortalecido. A imprensa dá uma pequena trégua e volta com novas denúncias, que chegam de gente que, com sede de vingança ou de despeito, aproveita a onda para jogar mais lama no denunciado.
O Ministério Público, no primeiro momento, não víª culpa, mas diante da insistíªncia da imprensa, declara a decisão de apurar melhor.
A Presidíªncia da República cansa. Sente que é hora de virar a página e manda o sujeito embora. O cara nunca mais se recupera. Com Carlos, o Lupi, não será diferente.
E, ainda sobre o tema, é interessante ler o que escreveu Ricardo Noblat, com o título “Fora Lupi”.
Fora Lupi, publicado no jornal O Globo de ontem, segunda-feira:
“Malfeito para rste governo só é malfeito quando vira escãndalo” ”“senador Aécio Neves (PSDB-MG)
Quer saia logo do governo ou não, Carlos Lupi, ministro do Trabalho, garantiu modesta nota de pé de página em livro de História sobre o governo Dilma Rousseff como o auxiliar que mais constrangeu a presidente antes de levar finalmente um merecido pé na bunda.
Até aqui, pelo menos, trata Dilma como se ela não passasse de um desdentado tigre de papel.
Diga-se a favor de Lupi que ele não foi o único a resistir a deixar o cargo.
Salvo Nelson Jobim, ministro da Defesa e afilhado de casamento de José Serra, os demais desabrigados do governo em sua fase inaugural foram embora contrariados ou cuspindo fogo. Afinal, ser ministro é muito bom. Todos o cortejam e paparicam. Sem falar das vantagens que de fato importam.
O fogo cuspido por um ou outro não provocou mossa em Dilma – longe disso. Ela foi hábil ao lidar com as diversas situações.
Antí´nio Palocci, ministro da Casa Civil, por exemplo, saiu sob aplausos. Os olhos de Dilma ficaram marejados.
Só faltou uma orquestra de metais para embalar com músicas épicas a saída triunfal de Orlando Silva do ministério do Esporte. Foi emocionante!
Alguém estranho aos nossos costumes ”“ um nórdico ou anglo-saxío – teria dificuldade em entender por que se demite um ministro e depois se junta um coro de carpideiras para chorar sua saída.
Somos latinos e melífluos, essa é que é a verdade. E também cínicos por natureza.
Lupi dispensou choro, vela e tapinhas nas costas. Aproveitou sua condição de único e inquestionável donatário do PDT fundado por Leonel Brizola para falar grosso, dizer desaforos e comportar-se como se lhe coubesse dirigir a cena protagonizada por ele mesmo.
Quis ser valente ”“ foi apenas vulgar. Tentou fazer graça ”“ pareceu um cafajeste.
O grosso: “Conheço a presidente Dilma há 30 anos. Duvido que ela me tire. Nem na reforma ministerial”.
O desaforado: “Daqui ninguém me tira. Só se for abatido í bala. E tem de ser bala de grosso calibre porque sou pesado”.
O vulgar: “Sou osso duro de roer”.
O cafajeste: “Presidente, me desculpe se fui agressivo. Dilma, eu te amo”.
Se não tivesse outros motivos para demitir Lupi, Dilma ganhou de graça um poderoso e definitivo motivo ao ouvir dele em depoimento no Congresso o debochado pedido de desculpas.
“Dilma, eu te amo” é a maneira mais sarcástica de tirar de alguém a majestade do seu cargo e de reduzir-lhe a autoridade.
Deveria ter sido despachado no ato. Mas o tigre só miou.
A soberba de Lupi voltou a se manifestar quando ele foi homenageado na última sexta-feira pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.
Agarrado í calça que a todo instante ameaçava deixá-lo só de cuecas, Lupi prometeu como se lhe sobrasse poder para tanto: “Vou acabar com o ciclo de ministros demitidos no grito. Ah, vou!”.
Dilma pensou a mesma coisa quando Lupi começou a ser atingido por denúncias de malfeitos. Disse a um assessor: “não, não vou deixar que a imprensa derrube um ministro a cada semana”.
Evoluiu depois para a posição de demitir Lupi ao reformar seu ministério. não está mais certa disso depois de ter lido a VEJA no fim de semana.
Ali resta provado que Lupi mentiu ao Congresso ao negar que tivesse voado em jatinho de empresário. E que mentiu novamente ao fingir que mal conhecia Adair Meira, um gaúcho dono de ONGs.
Lupi viajou pelo interior do Maranhío no jatinho King Air de Meira. E mais: na companhia do próprio Meira, aquinhoado depois com contratos suspeitos no governo.
Roubar nas barbas do presidente não é necessariamente razão para ser demitido. não é mesmo.
Ao lotearem seus governos com os partidos, os presidentes sabem que pagarío o preço de fechar os olhos a pequenos grandes roubos.
Mas mentir ao Congresso, por mais que o Congresso seja uma casa de mentiras, é um crime grave. Ou assim deveria ser encarado.
A se admitir que nada aconteça ao ministro de Estado que mente diante dos representantes do povo, o melhor é decretar de uma vez por todas que vivemos em uma falsa democracia. E que o servidor público número um, o presidente da República, é também o farsante público número um.


