De Getúlio Vargas a Orlando Silva.

Caricatura do ex-presidente Jânio Quadros feita por Pedro Bottino - Direitos reservados ao Estadão.com.br

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Em Brasília, mais um ministro deixou a pasta, por ser acusado de não cuidar bem do dinheiro público e ser complacente com as badernas administrativas que o seu grupo político praticou. Quando a onda começou em cima dele, já se sabia o final, porque, como já disse aqui neste espaço, o caso dele é caso repetido inúmeras vezes, sempre com o mesmo enredo:

  1. De início, as denúncias;
  2. Em seguida, a indignação do acusado – atitude sincera, porque todos os que são apanhados, acham que faziam o que foram pagos ou escolhidos para fazer;
  3. Depois, o apoio público da Presidente da República,
  4. Novas denúncias,
  5. Ministério Público no pedaço,
  6. Renúncia ou demissão
  7. O esquecimento do caso inteiro, tanto por parte dos denunciantes, quanto por parte dos investigadores.

O personagem do momento é do Partido Comunista do Brasil, essa coisa velha, carcomida, que o mundo antigo chamou de comunismo, mas que o mundo moderno abandonou de vez, quando se descobriu que de comum o comunismo só tinha o comportamento autoritário e os privilégios dos “camaradas”. Não por outros motivos, o comunismo caiu com o Muro de Berlim e foi dissolvido no conjunto de dissolução da União Soviética.

Contudo, se existiu bem no resto do mundo, o comunismo por aqui, na verdade, pouco existiu e, no pouco que existiu fez vergonha, como envergonhado continua encarnado no organismo do PCdoB, que para fugir do encosto se diz “O Partido do Socialismo”. Também está na alma do PPS, que abre o seu estatuto com a explicação rasa de ser o “Partido Popular Socialista, sucessor do Partido Comunista Brasileiro”.

Ex-Presidente Getúlio VargasE, de um modo bem nosso, o comunismo está no governo representado pelo PCdoB e, ao mesmo tempo na oposição com a cara do PPS. Coisa parecida, bem semelhante, ao que fez no tempo do ditador Getúlio Vargas, a melhor referência do comunismo no Brasil, Luiz Carlos Prestes, “Cavaleiro da Esperança”.

O sujeito, por pragmatismo político, beijou a mão do algoz que lhe roubou a esposa grávida, Olga Benário Prestes, para entregá-la aos nazistas. Ela, depois de chegar à Alemanha Nazista, como presente de Prestes e Getúlio, passou pelos campos de concentração de Lichtenburg e Ravensbrüch, para morrer no campo de extermínio de Bernburg.

Ela lá a sofrer desonras e morte e Prestes no Brasil a merecer as honras que lhe fez o jornalista Viriato de Castro, na obra “O Fenômeno Jânio Quadros”, escrita e publicada em 1959.

A obra, no todo, traça a trajetória de Jânio até a campanha dele para a Presidência da República. É um tratado de história política e estratégia eleitoral.

Sobre Prestes, informa Viriato expectador presente:

O que estarreceu a Nação foi a atitude de Luiz Carlos Prestes. O líder comunista, depois de sofrer as piores torturas, durante nove anos inteiros nas prisões do Estado Novo, deixa a cadeia para comandar, com os comunistas, o movimento pró-Getúlio Vargas, através do slogan – “Constituinte com Getúlio”! Foi assim que Prestes, ex-“cavaleiro da esperança”, resvalou de desprestígio em desprestígio, até ficar como agora – um líder sem qualquer expressão, detentor de minguados votos e de um punhado de adeptos, que não mais lhe seguem a “palavra de ordem”. Foi o ato mais estúpido de toda a história da tática política no Brasil, sejam quais forem as razões com que se queira justificar aquela “tomada de posição”. A auréola de mártir, que Prestes ganhara nos duros anos de prisioneiro da ditadura, desfez-se com a aliança firmada entre o ex-prisioneiro e o ex-algoz…

E, como voltei à obra de Viriato, livro que de presente recebi e li no meu aniversário de 29 anos de idade – agora estou a bater na trave da casa dos 60 – não me custa dela recuperar outro depoimento do autor, que, por certo, servirá aos meus leitores, como elemento de comparação com o que acontece hoje e aconteceu sempre no Brasil. Apresento as declarações por tópicos, para melhorar a qualidade da visualização:

  1. Ex-Ministro dos Esportes Orlando Silva“Após a Revolução de 1930, em todas as esferas administrativas, os grupos desejavam ou empregos públicos ou facilidades e negócios (…).
  2. A prática era a nomeação de parentes, de amigos, e a doação de vantagens, de negócios, de facilidades aos grupos que, assim, levantaram fortunas da noite para o dia. Milhares de funcionários de todas as categorias, onde houvesse repartição pública, eram nomeados por cartas de recomendação, por pistolões, por padrinhos, sem concurso e sem qualquer apuração do valor individual. (…).
  3. Os cofres públicos eram as fontes inesgotáveis que sustentavam e engraxavam as rodas imensas e múltiplas da formidável máquina política montada após 1930. (…).
  4. Nos Estados e nos Municípios, principalmente após a inauguração do “Estado Novo”, governador e prefeito seguiam essa mesma esteira, esse mesmo exemplo da União.
  5. Todos os abusos eram permitidos, pois a máquina administrativa pertencia ao grupo, aos poderosos que, por autoridade própria, dilapidava o patrimônio até das gerações futuras.
  6. O regime de impunidade vigorou: todos os crimes, todos os escândalos, todas as imoralidades eram abafadas, engavetadas, desviadas, sumidas. O homem público fora feito para roubar, furtar, fazer bandalheiras, sair rico dos cargos…
  7. Era a desmoralização do político e da política, da lei, da autoridade, do governo. O funcionalismo público, federal, estadual e municipal caiu no mais absoluto descrédito diante do povo, que via na classe burocrática somente o peso morto sustentado através dos impostos.
  8. Então, um espetáculo doloroso se apresentou em todas as suas cores: a máquina administrativa, o funcionalismo, os políticos e o próprio governo estavam irremediavelmente comprometidos aos olhos do povo, principalmente das classes trabalhadoras. Numa palavra: avacalhados!

Para encerrar, porque já vou longe demais, cabe dizer que, com este discurso Jânio Quadros foi eleito e renunciou. E, com o mesmo discurso: os generais assumiram o país em 1964; Collor venceu a eleição em 1989; o povo foi às ruas em 1992; Itamar Franco chegou à Presidência no mesmo ano e Lula disputou todas as eleições, tanto as que ele perdeu com as que venceu.

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