Logo que assumiu a Presidência da República, Lula patrocinou a mais explícita situação de compra de votos no Congresso Nacional, situação que veio ao conhecimento público por denúncia de um dos seus principais aliados, Roberto Jefferson. O caso motivou três comissões parlamentares de inquérito no Congresso Nacional e processos judiciais por formação de quadrilha e outros crimes. Surgiu a figura do mensalão. Quando a bomba estourou, se soube que quase todo o governo e aliados do presidente estavam envolvidos.
As notícias, no primeiro momento, deixaram a população em choque. Esperou-se o impeachment, que não veio por decisão da oposição que, soubemos há pouco tempo por declarações do deputado Ciro Gomes, compôs com o governo para evitar que o presidente fosse buscar o apoio das ruas.
A situação toda indicava extrema dificuldade para o presidente na campanha pela reeleição. Não suficiente o quadro negativo causado pela operação de compra de votos, na reta final da campanha, descobriu-se o PT, partido do presidente, na preparação de dossiês falsos contra os adversários. Lula, ao saber que a turma fora descoberta, segurou o tranco ao designar os operadores do dossiê de aloprados.
A oposição, em cena nos dois momentos, não soube atuar. Durante as comissões parlamentares de inquérito, a turma do PFL gritou aos quatro ventos os mais contundentes impropérios contra o presidente e sua turma, mas faltou-lhe autoridade moral para ser ouvido, em razão de sua vinculação histórica com a revolução de 64 e com figuras polêmicas como Antônio Carlos Magalhães, Sarney, Luiz Estevão e Collor de Mello.
O PSDB começou bem a batalha nas Comissões Parlamentares de Inquérito e nas ruas, com discurso moralizador, que perdeu tão logo matou no peito as denúncias contra um dos seus, o ex-governador Eduardo Azeredo, que financiou a sua campanha pela reeleição para o Governo de Minas Gerais com as mesmas fontes que operaram o mensalão.
Isso não fosse suficiente para ajudar o Presidente Lula em campanha pela reeleição, o PSDB patrocinou uma cisão interna, iniciada com uma guerra de nervos entre José Serra e Geraldo Alckmin e encerrada quando Serra, ao perder a vaga, abandonou a campanha do Geraldo Alckmin.
Lula conquistou a reeleição, mas entrou no segundo mandato embalado pela dúvida presente na cabeça da população: ele sabia ou não sabia das operações do mensalão? Ele autorizou ou não autorizou? Lula não precisou perder o sono.
Antes do final do mês da posse do Lula no segundo mandato, ainda no mês de janeiro de 2007, a revista VEJA empurrou a conta para o Congresso Nacional com a publicação de uma pesquisa que fez o IBOPE para saber a opinião do povo sobre os deputados e senadores. Resposta:
Apenas 3% dos brasileiros ouvidos pela pesquisa afirmam acreditar que os congressistas representam e defendem os interesses da sociedade, uma imensa parcela de brasileiros (84%) acha que os parlamentares trabalham pouco e 52% consideram que não passa de 10% o número de bons deputados e senadores do país. Mais constrangedor do que isso, só os adjetivos que os entrevistados selecionaram para classificar os seus representantes. Pela ordem: desonestos (55%); insensíveis aos interesses da sociedade (52%); e mentirosos (49%).
O Congresso, apesar de renovado, não soube responder a agressão e a oposição ao Lula não percebeu que a pesquisa igualava o jogo, com vantagem potencial para o Presidente, gerente da máquina pública. Com ela, Lula ficou a vontade para não desmontar o palanque eleitoral e entrou no segundo mandato em campanha.
Em seguida, a oposição resolveu investir no caos aéreo e nos acidentes com os aviões. Outro erro, porque o Presidente, “comandante” da Infraero, em início de mandato, resolveria a questão ainda que por completa omissão. O tempo estava a favor dele. O discurso, naquele momento, deveria ser o retorno do tema do mensalão, responsável, em última instância, pelo caos administrativo.
Aconteceu o previsto. Em pouco tempo, o caos nos aeroportos desapareceu sem solução definitiva para o problema e o presidente aproveitou bem o tempo para reorganizar o governo e permanecer no palanque da reeleição.
Depois veio a história do terceiro mandato, outra situação que o Lula poderia resolver com uma penada. Ele deixou correr a história para ocupar a oposição e quando resolveu que era chegado o tempo de mudar o rumo dos acontecimentos, sacou a Dilma e esvaziou novamente o discurso da oposição.
E, desde a abertura do segundo mandato, a coisa corre desse modo: a oposição aproveita fatos que o presidente pode resolver e se esvaziado o seu discurso, quando o presidente, efetivamente, resolve a questão. Estupidez absoluta!
Como o tempo passa rápido, estamos novamente em tempos de campanha para a Presidência da República. Ao contrário do que aconteceu em 2006, Lula não está acuado, mas na ofensiva e bem à vontade, enquanto a oposição tenta encontrar o discurso, um tema para a campanha. Pelo que se lê, a estratégia é não confrontar o presidente e sim a sua candidata. É demonstrar que a oposição possui um candidato com mais capacidade para dar curso ao trabalho do presidente. Nada mais equivocado em termos de estratégia.
Será quase impossível para a oposição vencer a eleição se não confrontar o presidente e demonstrar os riscos inerentes à decisão de se esticar no tempo a política adotada por ele. Uma overdose de Lula matará o Brasil. Se ele vencer novamente, ampliará o processo de ocupação da máquina pública com aliados, fará crescer a corrupção, dará fim ao que resta de virtude na política e dissolverá, definitivamente, as instituições.