Direto ao assunto. Eles gostem ou não.
Encontrei nos meus arquivos um artigo escrito em 2008 para o Diário de Teresópolis. Era ano de eleições municipais e um médico, Jorge Mário Sedlack tomava a dianteira nas pesquisas eleitorais. Ele foi eleito e, dois anos depois, afastado em razão de denúncias de corrupção no seu governo.
O texto na época provocou polêmica e logo depois de publicado, levou o Jorge Mário ao meu escritório, com o convite para que eu organizasse a estratégia da campanha dele e elaborasse um programa de governo na linha que defendi.
Combinamos o trabalho e fomos bem até o terceiro mês, quando ele deixou de honrar com os pagamentos. Mas, o programa lhe foi entregue e a estratégia que desenhei essencial para a sua vitória.
Depois, descobri que o Jorge Mário, além de médico frustrado, também tentou ser pastor de uma das muitas comunidades evangélicas que ocupam as ruas da cidade. Não conseguiu e fugiu para a política. Deu com os burros n’água!
Em Teresópolis, muito antes do afastamento do Jorge Mário já havia quem dissesse ter descoberto a verdadeira vocação do sujeito. A Justiça dirá.
O artigo recebeu o título Direto ao assunto. Eles gostem ou não:
As cidades, a exemplo das pessoas, têm personalidade e vocação. Também como as pessoas, quando desviadas de sua vocação, de sua personalidade, elas frustram o potencial de rendimento, são tristes, andam com ares de gente decepcionada com a própria vida. Pode-se ter a pele de um advogado na alma de um médico, mas neste corpo, a cabeça, por certo padecerá e o destino do seu dono não será o melhor.
Olhem Teresópolis e vejam se não me cabe razão. A cidade anda como um fantasma, com olhos de desilusão e de pouco apreço pela própria vida, porque os que a têm governado, obrigaram-na à profissão dos donos de estalagens de segunda classe, quando ela clamava e clama por ser um centro turístico e de formação intelectual.
Desviada de sua vocação e ferida em sua história e personalidade, Teresópolis se tornou uma cidade apática, feia, que, para viver, depende da caridade dos políticos e dos governos de fora.
A economia local está destroçada e por conta disso a cidade arrecada pouco mais da metade do que necessita para sua alto-suficiência. O resto vem de fora, dos cofres do governo estadual e do governo federal, depois de beijadas as mãos dos políticos que não têm compromisso com o desenvolvimento, mas com as práticas indecentes do clientelismo pragmático.
Os melhores pontos de comércio da Cidade, quase todos, já foram desviados para o tratamento das almas. Gente desocupada e de pouco estudo, sem oportunidade de trabalho, aboleta-se nos púlpitos e nos altares a prometer prosperidade pessoal para já, no lugar da salvação e da vida eterna. Gente que vende Cristo por bem menos que 30 dinheiros. Neste campo, Judas foi melhor mercador.
Em cada esquina, não uma, mas duas ou três representações de seitas e comunidades evangélicas, apelidadas de igrejas e templos, estão localizadas onde poderia haver ou houve restaurantes, casas de espetáculo, clubes sociais, bibliotecas, teatros, cinemas, shoppings. A situação local é tão ruim, que as seitas e comunidades agora ocupam, quase por completo, os espaços nos canais de comunicação, que, numa economia forte estaria destinado a excelentes patrocinadores e a programas de boa qualidade.
Pena que seja assim, porque Deus nos ofereceu o cenário para instalação de uma cidade viva, vibrante, capaz de dar aos seus filhos e aos seus habitantes os melhores motivos de alegria e de realização pessoal. E também nos deu o discernimento, a emoção e a racionalidade para decidir por nós mesmos o que fazer com a dádiva.
Mas Deus não fez o trabalho que não lhe caberia fazer: escolher quem fosse capaz de entender o recado, o preço do prêmio, e governar a cidade com a faculdade de entender e explorar a sua vocação e a sua personalidade histórica.
Sinceramente, não temos sido felizes nas escolhas que fizemos para a composição do corpo político da Cidade. Talvez por acreditar demais em promessas ou por também não saber exatamente o que fazer com o voto.
Deus nos fez uma cidade para o descanso, para o lazer e para a contemplação de sua obra e tem dado mostras de não se incomodar que a exploremos se soubermos conservá-la. Neste ambiente criado por Deus, alguns seres mais inspirados, construíram um berço para a educação acadêmica, a FESO, que sempre representou a oportunidade de se fazer da cidade um pólo de ensino com potencial de multiplicação de empregos e renda.
Depois veio a CBF, que ao lado da FESO e dos benefícios oferecidos pela Natureza, organiza um conjunto de condições interessantes para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento do esporte, da educação, do turismo, lazer e formação intelectual.
Como aproveitar tudo isso? Com certeza, não será do modo como os políticos locais têm agido. Eles preferem a política mais fácil, de manter a pobreza, a falta de oportunidades, para oferecer as esmolas representadas pelos programas que trazem dinheiro de fora.
Estamos novamente a ingressar no tempo das eleições municipais e prometer é pouco, é quase nada. Buscar credenciais no prestígio com gente importante e de fora é menos ainda, porque a gente já viu que isso funciona na prática. Os de fora querem o voto de momento e adeus.
Teresópolis precisa de governos que cuidem dela melhor. Gente que se envergonhe com a rodoviária que tem; que fique com o rosto em chamas ao utilizar o fruto do monopólio que há nos transportes coletivos; gente que se sinta humilhada diante do entulho com jeito de prédio queimado colocado ao lado da Câmara Municipal, no coração da cidade. Sinceramente, não sei por que diabos o ex-prefeito Celso Dalmaso permite a exposição do seu nome naquele lixo. Eu, no lugar dele, teria processado cada prefeito que passa por ali sem jogar aquele troço no chão.
Teresópolis tem necessidade de um calendário de eventos com apelo nacional e internacional, porque tem porte e história para tanto. Paraty é menos, em história e pujança, e tem feito muito mais.
Teresópolis é, queiramos ou não, uma Cidade com vínculos com a História do Brasil, que tem personalidade forte no campo do desenvolvimento do turismo e na prática do veraneio. Ela precisa, contudo, de uma gestão capaz de entrelaçar a força que tem na agricultura, na formação acadêmica e no quadro de belezas naturais com o potencial turístico, para explorar o turismo rural, o turismo de entretenimento, o turismo cultural, o “ócio criativo” (veraneio). E, com tudo isso, também criar empregos, salários decentes, formação de mão de obra e, sobretudo, dignidade.
Confesso que a escolha em outubro de 2012 será uma escolha difícil. Talvez a mais complicada de toda a história.